quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Orlando recebeu 736 mil brasileiros em 2025. Por que o destino continua sendo um sonho depois da infância?

 

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Orlando recebeu 736,3 mil brasileiros em 2025, um recorde para o mercado nacional e alta de 5,6% em relação ao ano anterior. O Brasil foi o terceiro maior mercado internacional da cidade, atrás de Canadá e Reino Unido. O resultado chama atenção porque o fluxo internacional de Orlando caiu 2,4% no mesmo período.

No total, 76,7 milhões de pessoas visitaram Orlando em 2025, segundo a Visit Orlando, também um recorde para o destino. Os números colocam o mercado brasileiro em uma posição relevante para uma das cidades turísticas mais conhecidas dos Estados Unidos.

Mas o que faz Orlando continuar no imaginário dos brasileiros mesmo depois da infância?

A resposta passa pelos parques, mas não apenas por eles. Para diferentes gerações, a cidade foi apresentada muito antes da primeira viagem, por meio de desenhos, filmes, séries, personagens, brinquedos, música e televisão. Quando chega o momento de comprar uma passagem, o destino já existe na memória.

Uma viagem que começa muito antes do embarque

A relação de gerações de brasileiros com Orlando foi construída ao longo de décadas. A televisão teve papel importante nesse processo, aproximando o público de personagens e histórias que depois seriam encontrados nos parques.

No caso da Disney, a estratégia não ficou restrita ao cinema e à televisão. A empresa transformou seus personagens e franquias em produtos, experiências e atrações. Atualmente, a Disney Experiences reúne parques, hotéis, cruzeiros e outras experiências de férias, enquanto a divisão de produtos leva suas marcas para diferentes categorias de consumo.

Esse modelo faz com que a relação com os personagens possa continuar mesmo quando a pessoa não está assistindo a um filme ou planejando uma viagem. O personagem aparece no brinquedo, na roupa, no livro, no material escolar ou em outros produtos.

É uma estratégia que transforma uma propriedade de entretenimento em uma referência cotidiana.

Da infância para a adolescência

A relação também não termina quando a criança cresce.

Quem passou pela infância nos anos 1990 e 2000 viveu uma fase de expansão da cultura pop juvenil, em que televisão, cinema, música, moda e produtos passaram a se misturar cada vez mais.

O Mickey Mouse Club, por exemplo, teve entre seus participantes nomes que posteriormente se tornariam estrelas mundiais, como Britney Spears e Justin Timberlake. A própria Disney resgatou posteriormente a história dos chamados Mouseketeers em seus canais oficiais.

Na mesma geração, grupos como *Backstreet Boys e NSYNC se tornaram fenômenos da música pop. Eles não foram criados pela Disney, mas fazem parte do mesmo ambiente cultural que marcou a adolescência de muitos dos brasileiros que hoje estão na faixa dos 30 e 40 anos.

É justamente essa sucessão de referências que ajuda a explicar por que Orlando pode continuar relevante mesmo quando a infância ficou para trás.

Quando a nostalgia vira viagem

Aos 30 ou 40 anos, a pessoa que cresceu consumindo essas referências passa a ter autonomia financeira para transformar o desejo em experiência.

O primeiro contato com Orlando, portanto, pode acontecer muito antes do primeiro desembarque.

Orlando tem uma característica muito particular porque a pessoa muitas vezes chega à cidade já tendo uma relação emocional com aquilo que vai encontrar. Ela conhece os personagens, os filmes e as histórias muito antes de conhecer os parques. Quando finalmente faz a viagem, existe uma expectativa construída durante anos”, afirma Daniel Dourado, profissional do mercado imobiliário da Flórida Central.

A relação ajuda a explicar por que a cidade consegue atrair diferentes faixas etárias. Para uma criança, existe a descoberta. Para um adolescente, a identificação com referências da cultura pop. Para um adulto, a nostalgia. Para os pais, a possibilidade de apresentar aos filhos lugares que fizeram parte da própria infância.

E os números mostram que esse vínculo continua forte entre os brasileiros. Em 2025, enquanto o fluxo internacional de Orlando recuou, a chegada de brasileiros cresceu 5,6% e atingiu o recorde de 736,3 mil visitantes.

Quando o sonho vira uma casa de férias

Para alguns brasileiros, a relação com Orlando pode avançar além da viagem.

O mercado imobiliário da Flórida tem uma longa relação com compradores internacionais e com o conceito de segunda residência e imóvel de férias. Dados da Florida Realtors mostram que, entre os principais grupos estrangeiros que compram imóveis no Estado, os brasileiros estão entre os mercados relevantes e apresentam uma característica particular: são compradores mais propensos a utilizar o imóvel simultaneamente como casa de férias e propriedade para aluguel. Em levantamento da entidade, 25% dos compradores brasileiros declararam esse uso combinado.

Esse comportamento ajuda a conectar turismo e mercado imobiliário. Depois de conhecer a cidade, alguns visitantes passam a considerar a possibilidade de retornar com frequência e, eventualmente, adquirir uma casa na região.

“Depois que o brasileiro conhece Orlando, é comum que a relação com a cidade mude. Ele deixa de enxergar apenas como um destino de férias e começa a considerar a possibilidade de ter uma casa para voltar todos os anos, inclusive como imóvel de temporada. A experiência que teve nos parques também aparece na escolha dos imóveis, principalmente nas casas pensadas para receber famílias, com quartos e ambientes temáticos que prolongam aquela experiência para dentro de casa”, afirma Dourado.

O mercado de casas de férias também criou espaço para imóveis com quartos infantis e ambientes inspirados em personagens, filmes e atrações. A decoração não significa, por si só, valorização automática do imóvel, mas pode funcionar como um diferencial de experiência para famílias que procuram uma hospedagem próxima aos parques.

“Existe um mercado de casas de férias que trabalha justamente essa experiência. Uma família pode passar o dia nos parques e, ao voltar para a casa, encontrar um quarto inspirado em personagens ou um ambiente pensado para as crianças. Isso transforma o imóvel em parte da viagem. Para quem já criou esse vínculo emocional com Orlando desde a infância, ter uma casa na região pode representar não apenas um investimento, mas a possibilidade de manter essa experiência por muitos anos”, completa o corretor.

Não é apenas Disney

Apesar de a Disney ser um dos principais símbolos de Orlando, reduzir a cidade aos parques da companhia seria ignorar o tamanho do destino.

Orlando reúne diferentes complexos de entretenimento, além de compras, gastronomia, eventos, esportes, hotéis e centros de convenções. A cidade recebeu 76,7 milhões de visitantes em 2025, mostrando que seu mercado turístico é muito maior do que uma única atração.

Os próprios parques continuam sendo uma parte importante desse ecossistema. O relatório anual da Themed Entertainment Association acompanha a frequência dos principais parques temáticos do mundo e mostra a dimensão global do setor.

Para os brasileiros, entretanto, existe um componente adicional: a familiaridade.

Orlando não precisa ser apresentado ao visitante da mesma maneira que um destino desconhecido. Muitas pessoas chegam sabendo quais personagens querem encontrar, quais atrações reconhecem e quais lugares fazem parte das histórias que acompanharam durante anos.

A cidade que passa de pais para filhos

É nesse ponto que a nostalgia ganha uma dimensão diferente.

O adulto que sonhou com Orlando na infância pode, anos depois, levar os próprios filhos. A viagem deixa de ser apenas a realização de uma vontade individual e passa a criar uma nova memória familiar.

“É muito comum encontrar famílias em que os pais tinham o sonho de conhecer Orlando quando eram crianças e agora estão levando os próprios filhos. A experiência deixa de ser apenas uma viagem e passa a representar uma memória familiar que pode ser repetida entre gerações”, diz Dourado.

O fenômeno ajuda a entender por que a relação com Orlando consegue sobreviver à passagem do tempo.

A criança que conheceu Mickey, princesas, super-heróis ou outros personagens pode se tornar um adolescente interessado em música, filmes e cultura pop. Mais tarde, já adulta, pode transformar essas referências em uma viagem. E, depois, voltar com os próprios filhos.

No caso brasileiro, os 736,3 mil visitantes registrados em 2025 mostram que esse vínculo não ficou preso às lembranças de uma geração. Ele continua ajudando a alimentar um dos maiores fluxos internacionais de visitantes para Orlando.

No fim, talvez a explicação para a permanência de Orlando no imaginário brasileiro esteja justamente nessa combinação: a cidade não é apresentada apenas como um lugar para visitar. Para muita gente, ela foi imaginada durante anos antes de finalmente ser conhecida.

E quando a primeira viagem acontece, o sonho da infância pode ganhar outro significado: virar uma lembrança adulta, uma experiência em família ou até, para alguns, uma casa para onde se pretende voltar.

carol@carolfreitasassessoria.com  

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