quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Churrasco de igreja: a tradição gastronômica que atravessa gerações no Sul do Brasil

 

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Nascido das quermesses promovidas por paróquias no Sul do Brasil em meados do século 19, o famoso "churrasco de igreja" surgiu com a chegada de imigrantes italianos e alemães, que trouxeram consigo tradições de fé, festa e culinária que se misturaram ao cotidiano das novas comunidades. Entre elas, uma técnica de conservação de carne originária da Renânia, região do oeste da Alemanha: deixar a peça submersa em um tempero à base de condimentos, ervas aromáticas e especiarias, capaz de garantir suculência ao alimento mesmo no dia seguinte ao preparo.

Essa técnica remete ao sauerbraten, tradicional assado alemão de carne fortemente temperada, usado no país de origem para conservar o alimento antes da existência de refrigeradores — geralmente preparado com vinho tinto, vinagre de maçã, ou a combinação dos dois. Ao chegar ao Vale do Itajaí, em Santa Catarina, a receita foi adaptada pelos imigrantes: o vinho e o vinagre deram lugar ao suco de limão, fruta abundante na região. A forma de preparo também mudou: na Alemanha não era costume grelhar as carnes como se passou a fazer no Sul do Brasil.

Como as famílias imigrantes eram numerosas e o acesso à carne era escasso, o churrasco era reservado para ocasiões especiais — casamentos, aniversários, bodas — e servido principalmente em quermesses, que arrecadavam fundos para obras sociais e expansão das paróquias. Assado nessas ocasiões, o corte acabou batizado de "filé de igreja", nome que carrega até hoje.

O corte que reúne três texturas em uma peça só

Segundo o chef Caio Fontenelle, à frente do Figueira, em Blumenau (SC), o filé duplo é um dos cortes mais característicos da culinária sulista e também um dos mais generosos:

"O filé duplo é um corte bovino com osso que reúne, em uma única peça, o contrafilé, o filé mignon e uma parte da fraldinha. O osso da espinha dorsal fica no meio, lembrando uma chuleta larga, e essa combinação resulta em texturas e sabores diferentes em cada fatia, o que faz dele um dos cortes mais apreciados nos churrascos tradicionais do Sul do país”, explica.

O preparo tradicional segue um método simples, mas que exige tempo: a carne é marinada por 24h em suco de limão, cebola em rodelas, sal e água suficiente para mantê-la submersa, e depois assada dos dois lados em brasa forte. Nas festas de igreja, é comum servir o churrasco acompanhado da própria cebola usada na marinada e de pão francês, às vezes também com maionese de batata, pepino em conserva e salada de tomate.

"O segredo está na combinação entre o osso, a capa de gordura e a variedade de fibras do corte. Isso garante a suculência mesmo em bifes grossos e no calor vindo direto da brasa”, complementa o chef.

Uma tradição que segue viva

Até hoje, o filé duplo é presença constante em churrascos de igreja, festas comunitárias e mesas de família em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.

"O filé duplo é um corte muito apreciado aqui no Sul. Os churrascos de igreja até hoje são muito frequentados por aqui, é um costume forte da população se reunir em festas comunitárias, com grandes mesas, bancos e brincadeiras, num momento de celebração e apreciação gastronômica”, pontua o chef.

Em Blumenau, cidade historicamente marcada pela colonização alemã e italiana, a tradição segue especialmente presente. O Restaurante Figueira, especialista em carnes nobres assadas na parrilla, celebra o aniversário da cidade, que acontece em 2 de setembro, com uma ação especial dedicada ao filé duplo. A ação ocorre na noite desta quarta-feira (02) e em todas as sextas e sábados do mês de setembro, durante o almoço. Nas ocasiões, o corte será servido com acompanhamentos do cardápio da casa, por R$196,00. O horário de funcionamento do Figueira é das 18h30min até 0h. A única exceção é no sábado, quando o restaurante abre apenas às 19h. Nas sextas, sábados e domingos a casa abre também para o almoço, das 11h30min às 14h30min.

kamile@trevocomunica.com  

 

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