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Escolher um destino já não depende apenas de uma lista de pontos turísticos, do preço da passagem ou da indicação de uma agência. Antes de decidir para onde viajar, o brasileiro pesquisa como será a experiência completa: onde se hospedar, o que comer, quais atividades realizar, quanto tempo dedicar a cada lugar e de que maneira aquele roteiro se conecta com seus interesses.
Nesse processo, Instagram e TikTok deixaram de funcionar somente como vitrines de paisagens. As plataformas passaram a participar efetivamente da pesquisa e da decisão de compra, apresentando hotéis, restaurantes, passeios e experiências que nem sempre aparecem nas campanhas tradicionais de divulgação.
Para Crisna e Diego, criadores do Lovetravelers e especialistas em conteúdo de turismo, uma das principais mudanças está na busca por viagens que tenham significado para cada perfil de público.
“O viajante deixou de escolher um destino apenas pelo nome ou pelos pontos turísticos mais conhecidos. Hoje, ele pesquisa muito mais e procura entender como será a experiência como um todo”, analisam.
Segundo o casal, as redes sociais ampliaram o acesso a informações práticas e permitiram que o público conhecesse os lugares pela perspectiva de quem já esteve neles. Pequenos detalhes sobre atendimento, localização, gastronomia, deslocamento e estrutura podem influenciar tanto quanto as atrações mais conhecidas.
Da inspiração ao planejamento
O primeiro contato com um destino nem sempre acontece durante uma pesquisa intencional. Um vídeo pode surgir no Instagram ou no TikTok quando o usuário sequer planeja viajar. A paisagem desperta o interesse, o conteúdo é salvo e, mais tarde, aquela descoberta passa a integrar uma lista de possibilidades.
A partir daí, começa uma nova etapa: o viajante procura informações sobre passagens, hospedagens, restaurantes, passeios e custos até transformar a inspiração inicial em um roteiro.
“Muitas vezes, a pessoa começa assistindo a um vídeo sem estar planejando uma viagem e termina salvando aquele destino para o futuro. Depois, pesquisa o hotel, o restaurante e os passeios e começa a organizar a experiência”, explicam Crisna e Diego.
As mensagens recebidas pelo Lovetravelers também ajudam a mostrar essa mudança. Perguntas sobre onde o casal se hospedou, quais atividades realizou e como organizou determinada viagem revelam que o conteúdo digital passou a ocupar uma etapa importante da tomada de decisão.
A imagem continua exercendo forte poder de atração, mas já não encerra a pesquisa. Após o primeiro impacto visual, o viajante quer compreender o que poderá viver naquele lugar.
“Beleza e conforto continuam importantes, mas o público pergunta: ‘O que eu vou viver ali?’. Percebemos uma busca por uma combinação de experiências, que pode envolver descanso, gastronomia, cultura local e atividades diferentes”, afirmam.
Hotel e gastronomia tornam-se atrações
O novo comportamento também modifica o papel da hospedagem. Localização, preço e tamanho do quarto permanecem relevantes, mas passaram a dividir espaço com arquitetura, identidade, atendimento, gastronomia, áreas de lazer, piscina, spa e vista.
Em alguns casos, o hotel deixa de ser uma estrutura de apoio e se torna um dos motivos para a escolha do destino. Isso acontece principalmente quando a hospedagem oferece uma experiência própria e coerente com o estilo de viagem procurado.
“O público já não observa apenas onde o hotel está localizado ou se o quarto é confortável. A hospedagem pode fazer parte da experiência e, em algumas viagens, tornar-se uma das razões para conhecer aquele destino”, avaliam os criadores.
A gastronomia percorreu caminho semelhante. Em vez de representar apenas uma necessidade durante a estadia, passou a ser incorporada ao roteiro como atração turística. Restaurantes, chefs, mercados, produtos regionais e experiências à mesa influenciam a escolha e ajudam a construir a identidade da viagem.
Há viajantes que definem o destino a partir dos restaurantes que pretendem conhecer ou da culinária típica que desejam experimentar. Nas redes sociais, conteúdos gastronômicos também costumam estimular comentários, compartilhamentos e pedidos de recomendação.
“As pessoas querem saber o que experimentar, onde comer e, principalmente, o que realmente vale a pena conhecer. A gastronomia passou a ocupar um espaço central no planejamento”, observam Crisna e Diego.
O “instagramável” já não basta
A aparência fotogênica de um destino ainda tem importância, sobretudo por despertar o desejo inicial. Entretanto, o conceito de lugar “instagramável” já não parece suficiente para sustentar sozinho uma decisão de viagem.
O público procura experiências autênticas, contato com moradores, gastronomia regional, manifestações culturais e atividades que ajudem a compreender o destino além dos cenários mais divulgados.
“O viajante não quer somente uma foto bonita. Ele quer ter uma história para contar depois daquela foto”, resumem.
Essa mudança também favorece a personalização dos roteiros. Em lugar de cumprir uma programação extensa e padronizada, parte dos turistas prefere adaptar a duração, o ritmo, a hospedagem e as atividades aos próprios interesses e ao orçamento disponível.
Um casal interessado em gastronomia e hotelaria, por exemplo, pode organizar uma viagem completamente diferente daquela planejada por uma família que prioriza parques e atrações infantis. Também cresce a preferência por roteiros menos acelerados, nos quais o viajante conhece um número menor de lugares, mas dedica mais tempo a cada experiência.
Sudeste favorece escapadas de curta duração
Nos estados do Sudeste, a concentração de grandes centros urbanos, a oferta de voos e a proximidade entre diferentes destinos favorecem as viagens de curta duração. Praias, cidades históricas, regiões serranas, circuitos gastronômicos e áreas rurais podem ser visitados em fins de semana ou feriados, sem a necessidade de férias prolongadas.
Para Crisna e Diego, as condições de acesso, a distância e o perfil de consumo geram diferenças entre os viajantes das regiões brasileiras. Ainda assim, a procura por conforto, gastronomia e novas experiências aparece em todo o país.
“O Sudeste tem uma oferta ampla de escapadas de fim de semana e destinos próximos. Em outras regiões, dependendo da oferta de voos e das distâncias, a logística pode influenciar mais diretamente a escolha”, explicam.
A possibilidade de organizar roteiros mais curtos também amplia o espaço para destinos próximos dos principais mercados emissores. Nesse contexto, um conteúdo sobre determinada pousada, restaurante, cidade ou experiência pode estimular uma viagem que não estava prevista pelo consumidor.
Confiança influencia escolhas
Se as redes sociais passaram a exercer maior influência, aumentou também a responsabilidade de quem recomenda um destino. Viagens envolvem planejamento e investimento financeiro, e uma avaliação pode pesar na escolha de uma hospedagem, um restaurante ou uma atividade.
Para os criadores do Lovetravelers, a transparência deve ser mantida inclusive nas experiências patrocinadas. A existência de uma relação comercial não pode resultar em uma opinião artificialmente positiva, pois a credibilidade é o principal patrimônio de quem trabalha com influência.
“Quando alguém pergunta onde ficamos ou qual experiência recomendamos, sabemos que aquela informação pode interferir em uma decisão de consumo. O creator precisa ser transparente e coerente com aquilo que apresenta”, defendem.
Uma experiência recente do casal em Los Cabos, no México, mostrou como o conteúdo pode ampliar a percepção do público sobre um lugar. Em vez de apresentar somente praias e resorts, as publicações abordaram gastronomia, natureza, hospedagem, experiências locais e atividades fora do circuito mais conhecido.
A reação dos seguidores indicou que parte do público passou a enxergar outras possibilidades no destino, antes associado principalmente aos grandes complexos hoteleiros.
Para Crisna e Diego, esse é um dos papéis atuais do conteúdo de viagem: não apenas exibir um lugar visualmente atraente, mas ajudar o público a compreender por que aquela experiência pode fazer sentido para seu perfil.
Mais informado e exposto a uma grande variedade de referências, o viajante passou a procurar menos por um roteiro que sirva para todos e mais por uma viagem que tenha relação com seus desejos, seu ritmo e sua maneira de conhecer o mundo.

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