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A cozinha é um espaço de subsistência, mas não só do corpo.
É um território de preservação política, fraterna e cultural de
uma família ou de uma comunidade. A comida é um elo comunitário
indissociável. No caso da cozinha quilombola, os sabores e aromas
contam memórias ancestrais,
A comunhão que o alimento temperado por uma ancestralidade
milenar propicia revela uma identidade pulsante que se mantém viva,
também, através do paladar. Cada ingrediente — do milho ao feijão, das
ervas colhidas no quintal aos preparos herdados dos antigos — e cada
história ou ensinamento compartilhados carregam
Nos quilombos, o ato de cozinhar sempre foi, é e será um exercício de compartilhamento e de proteção mútua. A resistência reside justamente na manutenção dessas práticas coletivas, que se opõem à lógica individualista e industrial da modernidade. A preservação e divulgação das receitas e das técnicas gastronômicas ancestrais garantem que as novas gerações saibam de onde vieram, estabelecendo uma soberania que passa pelo domínio do cultivo e do preparo do próprio alimento como um ato de independência, de luta contra a subalternização. O alimento é o veículo de um afeto profundo, um amor que sobreviveu aos traumas da diáspora e se reinventou no cotidiano das comunidades.
Deve-se ter em mente que a luta pelo território não se faz apenas com demarcações geográficas, mas com a legitimação dos costumes e dos saberes tradicionais. A luta pela manutenção e valorização da cultura negra sempre foi preparada por mãos sábias, com tempero forte, ao som de música e gargalhadas, em volta de uma mesa farta.
Celebrar essa culinária é, acima de tudo, um dever ético de validar a existência e a resistência de povos que, há séculos, sustentam a alma, o corpo e a identidade deste país. Através do sabor, o quilombo se faz eterno e presente, transformando cada refeição em um manifesto político de sobrevivência e dignidade. Todo brasileiro nasceu em um quilombo, mesmo que não saiba disso.
* Du Prazeres é autor do livro “Quilombo: contos e receitas”, professor universitário e pós-doutor em Letras.

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