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Os negócios familiares seguem entre os motores do empreendedorismo brasileiro, mas a profissionalização ainda separa empresas que crescem das que estagnam. A Pesquisa Global Family Business Survey 2026, da PwC, mostra que apenas 24% das empresas familiares brasileiras possuem um plano robusto de sucessão, apesar de 83% projetarem crescimento nos próximos dois anos. Foi justamente esse desafio que a Doce Magia precisou enfrentar para transformar uma produção caseira iniciada na garagem de casa, em Poá, em uma operação estruturada de confeitaria em expansão.
Felipe Noronha, CEO da Doce Magia e responsável pelo processo de profissionalização da empresa, afirma que o crescimento dela só se tornou possível quando a família entendeu que o modelo original precisava evoluir. “Toda empresa familiar nasce muito conectada ao esforço pessoal dos fundadores. Isso funciona até determinado momento. Depois, se não houver processo, governança e clareza na gestão, o crescimento trava”, diz.
A história começou de forma despretensiosa, quando os pais de Noronha passaram a produzir doces para complementar a renda da família em Poá, na Grande São Paulo. As vendas, inicialmente voltadas a vizinhos e conhecidos, abriram caminho para uma pequena operação montada na garagem de casa. Com a demanda crescente, o negócio ganhou escala local, mas manteve durante anos características comuns a empresas familiares em estágio inicial, com decisões centralizadas e estrutura pouco formalizada.
A mudança começou há cerca de seis anos, quando a empresa iniciou um processo de sucessão familiar com foco em gestão profissional. Segundo Felipe, o principal desafio não foi apenas operacional, mas cultural. “O mais difícil em uma transição familiar não é abrir novas lojas. É mudar mentalidade, definir responsabilidades, criar processos e separar decisões emocionais das estratégicas”, afirma.
Dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), divulgados em 2025, mostram que o consumo fora do lar segue relevante na rotina dos brasileiros, mesmo diante de oscilações econômicas e mudanças no comportamento de compra. Ao mesmo tempo, o consumidor passou a exigir mais padronização, experiência e conveniência, pressionando negócios familiares a reverem estruturas.
Sucessão exige mais do que continuidade
Especialistas em gestão empresarial apontam que a sucessão ainda é um dos maiores gargalos das empresas familiares brasileiras. A mortalidade costuma aumentar justamente quando a operação precisa migrar de um modelo intuitivo para uma gestão mais estruturada.
No caso da Doce Magia, essa transição envolveu reorganização administrativa, fortalecimento da cultura interna, revisão da experiência nas lojas e investimento em capacidade produtiva.
A empresa estruturou uma fábrica para suportar a expansão e passou a operar com visão de crescimento mais previsível. “Existe um mito de que profissionalizar significa perder essência. O que percebemos foi o contrário. Quando a operação fica organizada, a identidade da marca fica mais protegida, porque ela deixa de depender exclusivamente do improviso”, afirma Noronha.
Atualmente, a rede opera unidades no Alto Tietê e prepara expansão para novas cidades da Grande São Paulo, como Guarulhos e São Bernardo do Campo. O movimento acompanha a expansão urbana do consumo e a descentralização de operações de varejo alimentar para regiões fora dos eixos tradicionalmente mais saturados.
Crescimento familiar exige disciplina empresarial
Para Felipe, o erro mais comum entre empresas familiares está em confundir história com modelo de gestão. “Ter uma origem familiar é um ativo importante, porque gera identidade e proximidade com o cliente. Mas crescimento exige método. Sem isso, a empresa corre o risco de virar refém da própria história”, diz.
A trajetória da Doce Magia reflete um movimento cada vez mais observado entre negócios fundados de forma familiar que buscam amadurecimento para competir em segmentos mais profissionalizados, especialmente no varejo alimentar, onde escala, eficiência e experiência passaram a caminhar juntas.

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