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Ganho a vida entre as panelas, sejam elas de inox, de barro, alumínio ou de ferro. É no calor do fogão, entre comandas, peixe, banana e farinha que vi a vida passar. Esse ofício me trouxe autonomia financeira e me conduziu a muitos outros caminhos. Se alguém me perguntar qual é minha profissão, digo que sou chef de cozinha, mas no fundo me vejo como uma “fazedora de coisas”.
A minha busca sempre foi pelo conhecimento das histórias. Tenho a necessidade de entender e me conectar com a alma das pessoas, ouvir suas trajetórias e reconhecer a força que existe em cada caminho percorrido.
Foi por meio de projetos sociais que despertei um interesse quase sociológico pelas questões reais da comunidade em que vivo. Nesse percurso, encontrei especialmente as narrativas femininas, que sustentam famílias, preservam saberes, resistem às adversidades e transformam a vida cotidiana em um ato permanente de criação e cuidado. Suas histórias passaram a atravessar também a minha.
Essas experiências me mostraram que a culinária ocupa um papel muito maior do que geralmente imaginamos. Em diferentes territórios, ela funciona como instrumento de pertencimento, transmissão cultural e fortalecimento comunitário, especialmente pelas mãos das mulheres.
No final do ano passado, eu finalizava os textos de ParatyAnas – crônicas escritas ao pé do fogão. Uma das crônicas desta obra chama-se “A panela da minha vó”. Para escrevê-la, coloquei a caçarola herdada sobre uma mesa, saí para resolver algumas coisas e, na volta, alguém colocou um livro apoiado sobre ela. A imagem daqueles dois objetos juntos me atravessou profundamente. Foi então que ficou claro: o legado das mulheres da minha família estão presentes em mim: palavra e fogo, literatura e memória.
Através da “panela” recebi essa herança gastronômica,
Apesar do papel fundamental das mulheres na construção da identidade gastronômica brasileira, ainda existe um paradoxo quando essa herança é transportada para os restaurantes, onde a presença feminina segue enfrentando desafios de reconhecimento, liderança e valorização. Lembro que quando comecei me interessar pelo assunto ainda havia poucas chefs.
Já fomos muito questionadas sobre nossa capacidade física, competência, disponibilidade, por conta de termos filhos, entre outras situações machistas e desafiadoras, mas até aqui vencemos! Hoje, temos muitas chefs reconhecidas em nosso país, cheias de identidade e técnica.
Acredito que o nosso maior desafio atual seja conciliar tantas funções: precisamos ser gestoras, empreendedoras, comunicadoras, criadoras de conteúdo, negociadoras e guardiãs de uma cultura gastronômica. Tantas demandas podem acabar nos afastando da nossa essência
E foi num dia desses, que eu lidava com minha síndrome de impostora e refletia sobre
Em um tempo que tantas vezes nos afasta de quem somos e não
reconhece o trabalho silencioso do cuidado, olhar para essas
heranças pode nos reconectar com nossa essência e nos
fazer entender que o papel das mulheres na evolução
da gastronomia brasileira e
*Ana Bueno é chef e empresária, comandando há mais de trinta anos o restaurante “Banana da Terra”. Em 2024 criou o Instituto Paratiano de Gastronomia, com o objetivo de apoiar iniciativas em torno do alimento e sustentabilidade.

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