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A gastronomia de boteco está passando por uma transformação que não abandona suas raízes, mas amplia as possibilidades da comida popular brasileira. Ingredientes tradicionalmente presentes na cozinha caseira, como língua, moela, coração de galinha, quiabo e jiló, vêm ganhando espaço em petiscos que apostam em novas técnicas, apresentações e combinações de sabores.
Mais do que uma mudança de cardápio, o movimento representa uma nova maneira de olhar para ingredientes que sempre fizeram parte da cultura gastronômica brasileira. O que antes poderia ser visto como uma escolha simples ou até pouco valorizada passa a ocupar o centro da experiência, com preparo cuidadoso e propostas capazes de surpreender o consumidor.
Para Mariele Horbach, chef de cozinha e proprietária dos bares Jobim e Garota da Vila, especializados em gastronomia de boteco carioca, essa valorização está diretamente ligada à essência da própria cozinha brasileira.
“A comida de boteco sempre foi muito criativa. Ela nasceu justamente da capacidade de transformar ingredientes simples em pratos cheios de sabor e identidade. O que estamos vendo agora é uma valorização maior desses ingredientes, com o olhar do chef e técnicas que permitem apresentar algo conhecido de uma maneira diferente”, afirma.
Quando o ingrediente simples vira protagonista
Língua, moela e coração de galinha são exemplos de ingredientes que carregam forte relação com a cozinha afetiva e popular. Quando recebem diferentes métodos de cocção, temperos, molhos e acompanhamentos, podem ganhar novas texturas e interpretações sem perder suas características originais.
O mesmo acontece com legumes como quiabo e jiló. Tradicionalmente associados à comida caseira, eles podem ser trabalhados em diferentes preparos e assumir protagonismo em porções, entradas e acompanhamentos.
“Existe uma riqueza enorme nos ingredientes que muitas vezes foram considerados simples demais. O segredo está em saber trabalhar cada um deles, respeitando seu sabor e sua textura. Não precisamos transformar um ingrediente em outra coisa para valorizá-lo; podemos justamente mostrar o quanto ele já é interessante”, explica Mariele.
Essa abordagem também conversa com um consumidor que demonstra cada vez mais interesse por experiências gastronômicas que tenham identidade e história. No boteco, isso pode significar encontrar sabores familiares apresentados de maneira inesperada, criando uma experiência que mistura memória afetiva e descoberta.
Tradição não significa imobilidade
Para Mariele, modernizar a gastronomia de boteco não significa substituir os clássicos por receitas sofisticadas, mas encontrar novas possibilidades dentro de uma cozinha que já possui uma identidade muito forte.
“O boteco não precisa deixar de ser boteco para evoluir. A informalidade, a comida para compartilhar e os sabores brasileiros continuam sendo fundamentais. O que muda é a liberdade para experimentar novas técnicas e combinações, sem perder a alma daquela comida”, diz a chef.
Essa relação entre tradição e inovação ajuda a explicar por que ingredientes como jiló, quiabo, língua, moela e coração de galinha podem ganhar novo protagonismo. São produtos que carregam história, memória e identidade, mas que também oferecem possibilidades para quem cozinha pensar em novas experiências.
Nos bares de Mariele, essa filosofia se conecta à proposta de valorizar a gastronomia carioca de raiz e, ao mesmo tempo, dialogar com um público que busca novidades. A ideia é mostrar que a comida de boteco pode ser afetiva e descontraída, mas também criativa e tecnicamente elaborada.
“Quando valorizamos um ingrediente popular, também estamos valorizando uma parte da nossa cultura. É muito interessante poder colocar na mesa um sabor que alguém reconhece da infância e, ao mesmo tempo, apresentá-lo de uma forma que desperte curiosidade. Acho que esse é um dos caminhos mais interessantes da gastronomia de boteco hoje”, conclui Mariele.
Carol Freitas Assessoria

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